Têm surgido notícias sobre uma nova tempestade em Portugal – e isso não é verdade – na realidade teremos 15 dias estáveis, algum dia de chuva ocasional normal pelo meio – até meio da primeira semana de dezembro teremos um período estável! Mas está em curso um aquecimento súbito da estratosfera, e o vórtice polar está a quebrar, podendo ocorrer mesmo um fenómeno conhecido como “SSW major”
O vórtice polar, tipicamente, situa-se sobre o Pólo Norte, a dezenas de kms de altitude, e no fundo trata-se de um ciclone de larga escala, que mantém o frio e as depressões mais a Norte – com o jato polar a circular de Oeste para Leste
Porém, por vezes, e será o caso neste fim de novembro e início de dezembro, o calor presente na troposfera (camada baixa da atmosfera) acaba por “encontrar um caminho” e acaba por se “infiltrar” na estratosfera – e aí, o vórtice polar sofre uma grande perturbação – e os ventos que, habitualmente circulam de Oeste para Leste, podem mesmo reverter – algo a que chamamos “Major SSW”, ou, em tradução literal “grande aquecimento da estratosfera”
Quando isto acontece a corrente jato subpolar, que influencia o comportamento das depressões na nossa latitude, e no Atlântico, fica mais “ondulada”, com muito mais perturbação, e, por essa razão, as probabilidades de chuva, vento e neve aumentam drasticamente – e já falámos sobre isso na nossa previsão inicial para dezembro

NÃO HÁ NENHUMA TEMPESTADE EM PORTUGAL EM NOVEMBRO!
O final do mês de novembro será mesmo um período de relativa estabilidade, com dias de sol, frios, intercalados por 2 dias com alguma precipitação entre domingo e segunda (23\24 de novembro), rapidamente com o sol a surgir, novamente
A última semana de novembro deve ser, geralmente, seca, não descartando, obviamente, alguma instabilidade ocasional\algum dia com precipitação – algo que para já ainda não conseguimos vislumbrar com precisão. Ainda assim a tendência é para bastante sol!
Assim deve ser clarificado que não há mesmo qualquer previsão de temporal, e apesar de termos publicado que poderia ser nomeada uma depressão “Davide”, tal não se verifica – os modelos não são 100% fiáveis e esse núcleo de baixas pressões desapareceu das previsões
De momento, e agora com fiabilidade, apenas verificamos a presença de uma depressão perto do Reino Unido no fim-de-semana e início de semana, com chuva, vento e neve no Norte da Europa, e com frentes associadas a afetar Portugal, mas com precipitação perfeitamente normal, e vento normal. Não parece provável que venha a haver qualquer nomeação desta depressão nem que os efeitos em Portugal sejam relevantes
Dezembro também deve entrar seco, mas rapidamente pode vir a ter uma mudança, na transição para a segunda semana, que vimos mencionando!

AQUECIMENTO SÚBITO DA ESTRATOSFERA, E UM INVERNO DE EXTREMOS?
Sempre que surgem estes acontecimentos, cada vez mais comuns, e este ano até muito cedo, ainda em novembro (falamos claro dos aquecimentos da estratosfera) há imensa conversa entre a comunidade científica sobre as possíveis implicações no clima – sejam impactos regionais ou mais gerais. E qual o consenso? Normalmente não existe!
É muito díficil prever quais os impactos, pois é muito difícil perceber qual a extensão do fenómeno em termos de aquecimento e perturbação do vórtice polar – se teremos uma reversão total, ou apenas uma desaceleração dos ventos Oeste em altitude – e além disso qual a propagação para a troposfera – a camada da atmosfera que realmente pode vir a influenciar o tempo à superfície
Não interessa se o vórtice polar estratosférico está dividido se os efeitos não se propagarem para a superfície – acoplamento estratosfera-troposfera – ou se for algo muito passageiro – pouco iremos notar. Contudo, um aquecimento tão cedo leva a crer em alterações mais profundas, e um eventual inverno de extremos – mas vamos a alguns factos!
Será que teremos mesmo um “SSW Major” tecnicamente, ou seja haverá uma reversão completa dos ventos em altitude, passando a soprar de leste para Oeste? A resposta é… talvez, mas há muita dúvida! Vejamos a previsão GEFS

Um enfraquecimento dos ventos em altitude, seguido por um fortalecimento parece ser o mais provável de momento, e isto até 5-10 de dezembro. Contudo modelos a mais longo prazo, como o ECMWF EPS, normalmente fiáveis, indicam um segundo aquecimento de seguida
Esse aquecimento pode, efetivamente, levar a uma quebra total do vórtice polar – e eventual divisão do mesmo, e aí os efeitos sentidos podem ser mais drásticos
Há sempre um “lag\delay” entre estas alterações e a propagação para a troposfera, ou seja os efeitos que sentimos, pelo que o que está a acontecer agora pode vir a sentir-se na segunda semana de dezembro – altura em que esperamos então que se comece a estabelecer um bloqueio em altas latitudes, e depressões mais perto de Portugal – aumentando as probabilidades de chuva, e, aí sim, de alguma tempestade
Contudo a manutenção desse tempo instável dependerá de como evoluirá, depois, o vórtice polar – caso o mesmo se estabeleça mais forte até pode ocorrer algo bem oposto, e termos um tempo bem seco com o anticiclone de bloqueio sem nos largar! Ainda assim, e dado tudo o que sabemos, entre previsões médio\longo prazo dos modelos mais fiáveis, e análogos (anos com circulação mais próxima da atual), é provável um inverno… memorável
Não quer dizer que vá haver muito frio e neve, embora possam surgir pontualmente, mas sim chuva e vento, em depressões sucessivas próximas das nossas latitudes, que teremos de acompanhar – infelizmente o ano que vem À memória é 2001 – o ano em que a ponte de Entre-Os-Rios cedeu a tanta chuva… será uma repetição desse ano? Provavelmente não, mas pode ter alguma semelhança

Assim, e para já, aproveitemos o sol, mas contemos com mudanças em dezembro, e mais para a frente, ao mesmo tempo que acompanhamos o desenvolvimento de tudo isto – se é verdade que podemos ter um inverno memorável pelos extremos que podem vir a ocorrer regionalmente, também é verdade que, em certas ocasiões, este tipo de alterações nos conduziram precisamente ao oposto – ausência total de inverno e muita estabilidade
Também dependerá de onde se posicionarão os centros de alta pressão, de que forma irão interagir, e também de que forma a corrente de jato oscilará em resposta, algo que ainda não conseguimos prever – os 2 modelos mais fiáveis, habitualmente, ECMWF e CFS (Europeu e Americano, respetivamente) mostram 2 cenários drasticamente diferentes para o Inverno. O Europeu é o gold standard, mas qualquer um pode estar correto

Veremos então o que nos calha, mas preparar desde já a probabilidade de um inverno muito rigoroso será o melhor – como sempre dizemos… prevenção é a chave para evitar problemas de maior!
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