Nos últimos dias temos vindo a falar de uma ciclogénese explosiva que estará na origem do ciclone\tempestade Amy, que afeta o Reino Unido\Ilhas Britânicas entre sexta e sábado, 3\4 de outubro de 2025. Não é um fenómeno novo – e ocorre muitas vezes, principalmente no outono\inverno no Atlântico – mas sabe como se forma? E alguns exemplos já ocorridos em Portugal?
A expressão ciclogénese vem da junção de palavras “génese = formação” e “ciclone”, sendo que se considera que essa formação é “explosiva” (e sim, este é o termo meteorológico correto, embora por vezes se possa usar também o termo “ciclone bomba”) quando uma depressão baixa a sua pressão central em mais de 24mb em apenas 24 horas – e aumenta, assim, de forma súbita, a sua intensidade e potenciais impactos
Felizmente, na grande maioria dos casos, este tipo de fenómeno, até devido às condições necessárias para a sua formação, ocorre relativamente longe da Europa, mas, no Norte do Continente há sempre um risco agravado – como será o caso com esta Amy. Contudo Portugal Continental já foi afetado por diversas situações deste género, algumas delas bem intensas!
Mas ainda sobre a tempestade Amy podemos olhar para uma imagem de satélite desta manhã, 3 de outubro, e verificar que ainda não é mais que uma pequena mancha de nebulosidade, pouco definida – uma perturbação que segundo análise dos modelos terá cerca de 985mb de pressão central – caso não intensificasse seria uma depressão banal!

Segundo análise dos modelos meteorológicos, contudo, amanhã, pela mesma hora (perto das 6h sábado, 4 de outubro) a depressão AMY terá cerca de 945mb de pressão central – uma queda de cerca de 40mb em apenas 24 horas – impressionante!
Como referido para ser considerada uma ciclogénese explosiva uma depressão tem de intensificar pelo menos 24hPA em 24 horas, critério que a tempestade Amy cumpre largamente – portanto

MAS, AFINAL, COMO SE FORMA UMA CICLOGÉNESE EXPLOSIVA? QUAIS AS CONDIÇÕES NECESSÁRIAS?
Todas os ciclones nascem pequenos – isto é uma certeza – mas apenas alguns se desenvolvem e tornam verdadeiros “monstros” – por que razão? Bem, na realidade não é uma, mas sim várias razões! É necessário um conjunto de fatores em simultâneo, que detalhamos de seguida:
Um dos grandes motores para a formação de uma ciclogénese é um grande contraste de temperaturas entre o ar frio vindo do Ártico e o ar mais quente e húmido vindo do Atlântico. Esta diferença cria energia e instabilidade, o que facilita o desenvolvimento rápido e cavamento de uma depressão\ciclone. O oceano Atlântico relativamente quente alimenta também a depressão com ar húmido, potenciando a convecção – processo baroclínico
Contudo este não é o único fator – se o anticiclone se fortalecer, e a corrente de jato perder força, rapidamente a depressão fica sem “alimento”, ou seja o ar mais húmido e o contraste térmico, e perde força – muitas vezes acabando dissipando, ou apenas como uma depressão em altitude, sem grande relevância. Por vezes, no entanto, o jet-stream encontra-se “bem posicionado” em relação a esta depressão, e auxilia na sua formação
Para que um ciclone se intensifique rapidamente é necessário que a convecção surja, ou seja movimentos ascendentes\descendentes – movimentos verticais que criam baixas pressões. A corrente de jato ajuda neste processo pois o forte vento em altitude acaba por permitir um movimento mais rápido da depressão, e acaba por “retirar” o ar nas camadas altas da troposfera, abrindo “caminho” para que o ar suba mais rapidamente, amplificando a instabilidade
Assim uma ciclogénese explosiva precisa de vários ingredientes, entre os quais forte contraste térmico, elevada humidade no oceano e o apoio da corrente de jato. Quando todos estes ingredientes se combinam, a depressão\ciclone pode “explodir” em intensidade, como será o caso da Amy, provocando por vezes situações de tempestade – esperemos que sem muitos estragos, neste caso

EXEMPLOS DE CICLOGÉNESE EXPLOSIVAS EM PORTUGAL
Alguns casos notáveis de ciclogéneses explosivas em Portugal, relativamente recentes, incluem a tempestade Xynthia em 2010, a tempestade Gong em 2013, e a tempestade Ana em 2017 – entre muitos outros!
A tempestade Xynthia foi notável na Europa – com rajadas entre 100 a 120km/h nas terras altas mais a Norte de Portugal, bem intensa, mas ainda assim nada comparado com o que se passou em França – onde aí sim, foi muito mais violenta, infelizmente com vítimas mortais. Uma das tempestades mais severas na Europa Ocidental nos últimos anos…
Um dos exemplos mais impressionantes deste tipo de fenómeno com efeitos em Portugal foi registada em 2009, no dia 23 de dezembro, tendo provocado ventos próximos de 200km/h e extensos estragos. Contudo é difícil de dizer se, tecnicamente, esta foi ou não uma ciclogénese explosiva, uma vez que os modelos não lidaram bem com a situação, e a pressão registada nas estações foi 10mb inferior ao previsto!
É certo que a depressão “cavou” pelo menos 10hPA em 5-6 horas, e isso enquadra-se neste fenómeno – num contexto em que tinha todos os ingredientes, conforme já referido – jet-stream muito ativo, gradiente térmico elevado e muita humidade proveniente do Atlântico subtropical, Os danos foram, infelizmente, extensos, conforme reportado no fórum MeteoPT AQUI

Há muitos outros exemplos no século XX, bem documentados a nível de estragos, mas que, em alguns casos, é difícil de confirmar a existência de uma ciclogénese explosiva por definição – ou seja se realmente intensificou mais de 24mb em 24h
Contudo o ciclone de Fevereiro de 1941 é citado frequentemente como a pior tempestade já registada (na história moderna claro) em Portugal – e quando olhamos às cartas parece óbvio ter ocorrido um fenómeno deste género – pois a pressão central parece ter descido dos 980mb para os 950mb em pouco mais de 12 horas – valores aproximados. IMPRESSIONANTE!
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