Um dos fenómenos climáticos que gera mais atenção entre a comunidade científica atualmente pode estar de regresso em breve – trata-se do fenómeno “El Niño”, que desapareceu há pouco mais de um ano, tendo sido substituído pelo seu oposto “La Niña”
Estes fenómenos, que como já explicámos em outros artigos, refletem a variação de temperatura do oceano no Pacífico Equatorial Leste, têm impactos no clima na Terra, de várias formas – a nível global o esperado é que as temperaturas subam, normalmente entre 0,3 a 0,6ºC – enquanto, no Atlântico, o sinal habitual é para menos furacões que o habitual
Mas o que realmente está a despertar curiosidade no (provável) El Niño 2026, segundo as últimas previsões ECMWF, é a rapidez com que se forma, invertendo muito rapidamente a tendência atual, e a intensidade possível – entre +1 a +2ºC – o que poderá significar um El Niño forte. Não é comum!
Olhamos a outros anos com El Niño forte, e qual foi a tendência do clima em Portugal, e a nível global – continue a ler para mais informação!

EL NIÑO FORTE – O QUE PODE SIGNIFICAR PARA PORTUGAL?
Se a nível global, como referimos, os efeitos mais sentidos são, efetivamente, um aquecimento significativo – que nos pode levar para um patamar ainda não atingido, mais perto de 2ºC de aquecimento – a nível regional, e especificamente para Portugal, as previsões são muito mais difíceis – e, habitualmente, não há uma correlação muito significativa entre este fenómeno e o clima no nosso país
Aliás, olhando às ultimas ocasiões em que se desenvolveu uma anomalia ENSO+ tão intensa, o sinal estatístico é muito fraco – falamos de 1982-83, 1997-1998 e 2015-2016, por exemplo, como exemplos relativamente recentes – todos eles eventos de El Niño forte. O que estes anos têm em comum? Na realidade, pouco – se é verdade que 2015 e 2016 foram quentes, também é verdade que em termos de precipitação foram algo opostos – 2015 muito seco, 2016 muito chuvoso
1997 é interessante, pois mostra uma tendência que existe, apesar do sinal não ser forte – também em Portugal este fenómeno pode levar a mais calor – e de facto 1997 é um dos anos mais quentes já registados em Portugal (3º mais quente, atrás de 2022 e 2023), sendo também algo húmido\chuvoso
Em 1982 e 1983 temos uma tendência diferente, tendo sido anos dentro do normal em termos de temperatura, e perto da média, também, em precipitação – naquele que foi um dos fenómenos El Niño mais fortes já registados, mas que, efetivamente, não teve grande impacto no clima em Portugal
Conclusão? Bem, é difícil de dizer o que poderá acontecer, efetivamente, no nosso país – se por um lado alguns sinais climáticos e estatísticos mostram que nos pode trazer mais chuva (principalmente nos meses de Outono e Primavera) e mais calor (potencialmente extremo no Verão), também há exemplos de anos em que este fenómeno não manifestou alterações significativas em Portugal. Contudo, num contexto atual de aquecimento global, há sempre receio de que o calor extremo, infelizmente, se possa verificar, sendo, na nossa opinião, o maior risco!

IMPACTOS NO CLIMA GLOBAL
Como já referido o El Niño é um fenómeno climático natural e normal (é importante referir isto!) que ocorre quando as águas superficiais do oceano Pacífico Equatorial leste ficam anormalmente quentes, alterando a circulação atmosférica global. Esta mudança afeta a distribuição dos ventos na atmosfera, e modifica os padrões normais de pressão atmosférica, e, por consequência, temperaturas e precipitação
A principal consequência do El Niño é a alteração da convecção tropical, com mais instabilidade e chuva no Pacífico Central e Oriental, habitualmente. Algumas regiões que normalmente são mais secas podem tornar-se mais chuvosas, enquanto outras passam por secas algo intensas, por vezes prolongadas
As alterações registadas nas latitudes tropicais propagam-se também para outras latitudes médias, através de várias teleconexões atmosféricas, alterando a corrente de jato – e, por consequência, potencialmente, o trajeto e intensidade de tempestades, incluindo no Oceano Atlântico – o que por sua vez influencia o posicionamento das altas pressões subtropicais
Em termos globais, anos de El Niño tendem a ser mais quentes, pois o oceano liberta mais calor para a atmosfera. Isto contribui para recordes de temperatura à escala global, especialmente quando combinado com o aquecimento global cada vez mais rápido – por essa razão acreditamos que, a confirmar-se 2026 como o ano do regresso de El Niño, os próximos 2-3 anos podem trazer novos recordes de temperatura à Terra – e pode levar-nos mesmo a atingir 2ºC de aquecimento em relação à época pré-industrial
O El Niño tende também a reduzir a atividade de furacões no Atlântico, e a aumentá-la no Pacífico, devido a alterações na circulação atmosférica. No Atlântico, geralmente ocorre um reforço do cisalhamento do vento\wind-shear, o que dificulta a organização e intensificação dos sistemas tropicais, enquanto no Pacífico cria condições mais favoráveis à formação de ciclones mais frequentes (e intensos!). Obviamente é uma análise superficial, e exceções ocorrem, mas seria bom que se confirmasse mais um ano tropical calmo no Atlântico – depois de 2025 também ter sido relativamente calmo!

EM RESUMO – O QUE ESPERAR?
- O modelo ECMWF está, efetivamente, muito confiante na formação do fenómeno El Niño nos próximos meses, virando rapidamente a oscilação negativa atual
- Por essa razão a probabilidade de vir a ocorrer é, assim, muito elevada – superior a 60\70% – com probabilidade moderada de ser um fenómeno intenso
- A nível global irá causar impactos, certamente, e os próximos anos podem ser extremamente quentes – batendo mesmo recordes
- Talvez possam vir a surgir menos ciclones tropicais que o habitual no Atlântico, e mais no Pacífico – e mais intensos. Não é uma garantia, mas sim a tendência natural observada estatisticamente
- Em Portugal o sinal não é muito significativa, mas, ainda assim, tende a haver um pouco mais de precipitação e temperaturas mais elevadas perante este fenómeno. Reforçamos, no entanto, que há outros fatores mais importantes, pelo que será necessário mais análise

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