O tempo em novembro de 2026 poderá finalmente trazer uma mudança significativa na circulação atmosférica sobre Portugal e a Europa, em geral. Depois de um mês de outubro extraordinariamente quente e seco, em que as previsões da Luso Meteo para o regresso da chuva acabaram por não se concretizar (ups…), os modelos começam a apresentar sinais mais consistentes de instabilidade. Ainda assim, poderemos ter um mês algo variável
A principal novidade que afeta as previsões é o vórtice polar estratosférico, que deverá sofrer um enfraquecimento extraordinário e inédito durante os primeiros dias de novembro. Os modelos meteorológicos apresentam agora uma probabilidade muito elevada de ocorrência de um aquecimento súbito estratosférico major, o mais precoce desde que existem registos sistemáticos. Esta situação poderá modificar de forma muito significativa a circulação atmosférica durante as semanas seguintes
As cartas sub-sazonais mais recentes do ECMWF, o modelo em que mais confiamos, mostram uma evolução particularmente dinâmica: Depois de uns 10 dias marcados por contrastes entre bloqueios anticiclónicos e perturbações atlânticas (mais frio e instabilidade ocasional), aumenta a possibilidade de precipitação mais significativa durante a segunda semana. Posteriormente, poderá surgir uma fase temporariamente mais estável, antes de novas depressões se aproximarem da Europa Ocidental durante a última parte do mês…
As previsões sazonais do ECMWF e do Copernicus C3S, publicadas em outubro, também favorecem temperaturas acima da média e maior precipitação, com o sinal mais consistente para chuva acima do habitual no Norte, enquanto o Centro e, especialmente, a região Sul apresentam um pouco mais de incerteza. Assim, um mês globalmente mais chuvoso parece bastante provável (não vamos garantir, pois a longo prazo isso é impossível!)
Nos Açores a circulação Atlântica poderá tornar-se bastante mais ativa, com períodos de chuva, vento forte e possibilidade de algumas tempestades. Na Madeira, a previsão apresenta maior variabilidade, dependendo da posição das depressões e do anticiclone – é sempre difícil prever. Ainda assim favorece vários dias com chuva. Novembro poderá, portanto, marcar o verdadeiro regresso do outono a Portugal, mas com mudanças rápidas entre períodos de estabilidade e situações de maior instabilidade, talvez com fortes chuvadas e vento forte

TEMPO EM NOVEMBRO – PRIMEIRA QUINZENA COM INSTABILIDADE E REGRESSO DA CHUVA?
Os primeiros dias de novembro continuarão a ser marcados por temperaturas excecionalmente elevadas em Portugal Continental. O domínio anticiclónico permitirá máximas acima dos 25ºC em muitas regiões, podendo aproximar-se dos 30ºC nos locais mais quentes nos primeiros 2\3 dias. Contudo, esta situação deverá começar a alterar-se a partir daí, com uma descida progressiva das temperaturas e maior influência de massas de ar fresco
Entre os dias 4 e 9, algumas perturbações poderão aproximar-se do território, aumentando a possibilidade de chuva ou aguaceiros (particularmente depois de dias 6\7). Ainda assim, nesta fase, as cartas de anomalia de precipitação do ECMWF, por exemplo, ainda não mostram um sinal generalizado de chuva abundante. Poderemos ter instabilidade ocasional, sobretudo no Norte e Centro, intercalada com períodos secos, enquanto algumas regiões do Interior registam noites mais frias e possíveis geadas
É durante a segunda semana, aproximadamente entre 9 e 16 de novembro, que as previsões se tornam mais favoráveis a chuva, mais intensa, mais persistente, talvez com risco de tempestade. Os mapas começam a apresentar anomalias positivas de precipitação no Atlântico próximo da Península Ibérica, sugerindo maior facilidade para a chegada de frentes ou depressões. Se estas conseguirem avançar para leste, a precipitação poderá tornar-se mais frequente e intensa, principalmente nas regiões do Norte e Centro

Os regimes atmosféricos previstos pelo ECMWF revelam uma evolução complexa. O bloqueio anticiclónico, muito dominante no início de novembro, deverá perder expressão, surgindo posteriormente uma maior probabilidade de Crista Atlântica e diferentes fases da Oscilação do Atlântico Norte (NAO). Esta transição poderá permitir mudanças rápidas no posicionamento das depressões, com chuva mas também alguns períodos de estabilidade intercalados (o que leva a pensar que poderão ocorrer, também, trovoadas, dada a variação térmica provável)
Nos Açores a primeira quinzena poderá apresentar maior atividade depressionária, com períodos de chuva e vento, ocasionalmente fortes, especialmente nos grupos Ocidental e Central. Na Madeira, a influência de depressões isoladas poderá favorecer episódios de precipitação, sobretudo nos primeiros dias. Ainda assim, a evolução dependerá bastante da trajetória das perturbações, podendo ocorrer intervalos com tempo seco, relativamente agradável

SEGUNDA QUINZENA – ATLÂNTICO MAIS ATIVO, MAS COM POSSÍVEL “PAUSA ANTICICLÓNICA”
A segunda metade de novembro poderá começar com uma situação diferente, com o anticiclone a recuperar ligeiramente, diminuindo possivelmente a precipitação em Portugal Continental. As cartas de anomalia do geopotencial aos 500 hPa dos vários modelos, mostram, entre 16 e 23 de novembro, uma tendência para valores positivos sobre a Península Ibérica, compatíveis com alguma influência anticiclónica (dorsal africana). Caso se verifique, poderemos ter alguns dias de tempo mais seco, com temperaturas amenas
Esta possível pausa não significa, contudo, que o mês vá terminar com influência do anticiclone. Entre 23 e 30 de novembro, os mapas dos modelos, sejam do CFSv2, ECMWF ou outros que fazem parte do ensemble da Copernicus, começam a mostrar, novamente, anomalias negativas do geopotencial sobre o Atlântico Nordeste e parte da Europa Ocidental, sugerindo maior influência depressionária. O posicionamento das depressões poderá tornar-se mais favorável à passagem de frentes ocasionalmente fortes
As anomalias de precipitação previstas companham essa tendência, mostrando valores positivos em várias regiões da Europa Ocidental, Portugal incluído. Ainda assim bastará uma deslocação das depressões algumas centenas de quilómetros para alterar significativamente a precipitação prevista, pelo que é necessário ir acompanhando

Não podemos excluir episódios de instabilidade mais intensa e até de tempo severo – sejam tempestades cavadas como vento muito forte, ou situações de trovoada mais intensa. A possibilidade de fenómenos localmente severos deverá ser acompanhada, especialmente se surgirem bolsas de ar frio em altitude, ou algum sistema frontal ativo – há muita água precipitável disponível. Para já não podemos antecipar tempestades concretas, obviamente, mas, se tivéssemos de apostar, diríamos ser provável uma ou duas depressões nomeadas com impacto em Portugal durante este mês
Nos Açores a segunda quinzena poderá continuar bastante variável, com períodos de tempo perturbado intercalados com melhorias temporárias. A Madeira poderá também beneficiar de uma circulação mais favorável à chegada de humidade atlântica, com possibilidade de precipitação e mais vento. Assim, a segunda metade de novembro apresenta potencial para ser mais húmida nas Ilhas – e, localmente, particularmente instável

VÓRTICE POLAR, MJO E ANOMALIAS – SERÁ UM NOVEMBRO MAIS CHUVOSO E QUENTE?
O principal fator de incerteza para novembro será a evolução do vórtice polar estratosférico. Os ensembles do ECMWF mostram uma inversão dos ventos zonais a 10 hPa e 60ºN durante a primeira metade do mês, situação que, caso se confirme nas observações, corresponde a um aquecimento súbito estratosférico major, e que vai sendo corroborada pelo modelo GFS, dando força à previsão
A previsão também sugere uma recuperação relativamente rápida dos ventos de oeste na estratosfera durante a segunda metade de novembro. Isto significa que o vórtice poderá reorganizar-se após a perturbação inicial, ainda que a sua estrutura e intensidade permaneçam alteradas. Os efeitos sobre a circulação junto à superfície poderão surgir com atraso, persistir depois da recuperação estratosférica ou até revelar-se pouco significativos. Não existe uma relação automática entre este fenómeno e chuva em Portugal
Outro indicador importante é a Oscilação Madden-Julian (MJO), uma perturbação tropical que influencia indiretamente a circulação atmosférica global. Os ensembles mais recentes sugerem atividade nas fases 2 e 3 durante a primeira metade de novembro, associada a convecção reforçada no Oceano Índico. Tipicamente leva a evolução para +NAO, anticiclone mais forte – o que é contraditório à previsão, e reforça a incerteza…
Quanto às temperaturas a tendência é clara, e continua a favorecer um mês acima da média, apesar de algumas descidas pontuais. A previsão sazonal baseada no conjunto Copernicus, aponta para anomalias de +1 a +1,5ºC no Continente, e de +0,5 a +1ºC nos Açores e Madeira. Na precipitação, prevê-se uma anomalia positiva de 15 a 30mm em Portugal Continental, e de 5 a 10 mm nos Açores e Madeira,
Assim, a previsão da Luso Meteo segue neste sentido, favorece um novembro mais variável, mas potencialmente, certamente mais que outubro. Existe a possibilidade de períodos de chuva abundante e até algumas tempestades, particularmente se o Atlântico conseguir ganhar influência durante a segunda metade do mês. O sinal de mudança é real, mas a intensidade e persistência do fluxo Atlântico continua por confirmar. Será necessário acompanhar as próximas atualizações para perceber se novembro pode “compensar” o que ainda não choveu este outono…

Previsão elaborada por Fábio Félix | Luso Meteo às 15:40H de 31 de outubro de 2026
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