O Super El Niño de 2026 continua a apresentar uma intensidade extraordinária, com anomalias da temperatura da superfície do Pacífico Equatorial que, segundo os dados mais recentes, estabilizaram temporariamente em torno dos +3,3ºC na região Niño 3.4. É um valor absolutamente impressionante, numa altura em que continuamos a observar condições oceânicas e atmosféricas muito favoráveis à manutenção e intensificação deste fenómeno
Apesar desta aparente estabilização nas últimas semanas, continuam a ocorrer episódios de ventos anómalos de Oeste, conhecidos como westerly wind bursts (WWBs), sobre o Pacífico Equatorial. Estes episódios reforçam o transporte de águas quentes para Leste e favorecem a propagação de ondas oceânicas que ajudam a manter ou intensificar o aquecimento. Alguns cientistas acreditam que o pico já aconteceu, e não se pode excluir, mas o mais provável é ainda aquecer um pouco mais
Este El Niño já atingiu valores recorde em alguns indicadores e regiões do Pacífico, com a agência meteorológica japonesa (JMA) a confirmar anomalias sem precedentes na sua série histórica. No entanto, os modelos continuam, ainda assim, a antecipar um fortalecimento adicional, com o pico provavelmente entre novembro e dezembro, existindo cenários que colocam os valores máximos perto de meados de novembro (e perto de 4ºC). Assim, nas próximas duas semanas poderemos voltar a observar uma intensificação, depois desta estabilização
Os efeitos deste fenómeno já começam a ser sentidos em diversas regiões do planeta, com alterações importantes nos padrões globais de precipitação, na circulação atmosférica e na temperatura. Enquanto algumas regiões apresentam condições favoráveis a secas intensas, incêndios e dificuldades na agricultura, outras enfrentam maior risco de chuvas extremas, inundações e tempestades. O fenómeno é localizado no Pacífico, mas afeta o clima global de forma muito significativa
Há uma questão que consideramos especialmente importante, e que é pouco falada: quando terminará realmente este Super El Niño, e durante quanto tempo continuaremos a sentir os seus efeitos? A resposta pode surpreender muitos, porque o momento de maior intensidade oceânica não corresponde necessariamente ao período de maiores consequências atmosféricas e económicas. Na realidade, os efeitos mais significativos estão por chegar, sobretudo durante 2027 e ainda 2028

QUANDO É O PICO DESTE EL NIÑO, E ATÉ QUANDO IRÁ DURAR?
As previsões continuam a mostrar o pico deste episódio entre novembro e dezembro de 2026, com possibilidade de novos recordes de temperatura na região equatorial do Pacífico. Alguns modelos apresentam um máximo mais cedo, enquanto outros prolongam a intensificação até dezembro, precisamente quando os episódios de El Niño costumam atingir a sua maior intensidade sazonal
A NOAA atribui atualmente uma probabilidade de 83% a um episódio de intensidade histórica no trimestre outubro-dezembro, mas, na nossa opinião, isso é algo conservador – este será indubitavelmente o fenómeno mais intenso já registado. Também a Organização Mundial de Meteorologia considera praticamente certa a ocorrência de um fenómeno extremo pelo menos até fevereiro-março. Temos, portanto, um sinal muito forte para a manutenção de condições extraordinárias no Pacífico durante os próximos (vários) meses
Mesmo depois de atingir o máximo, o fenómeno El Niño não desaparece de um momento para o outro, e esse é o principal ponto que devemos destacar. O Pacífico Equatorial acumula enormes quantidades de energia e a sua distribuição posterior vai depender da interação entre a superfície do Oceano, a mistura de águas mais profundas e a circulação atmosférica. É um processo relativamente lento, e que costuma durar entre vários meses, a alguns anos
Para já, não existe uma data suficientemente fiável para determinar o fim deste episódio. As previsões oficiais sustentam a sua continuidade durante a primeira metade de 2027, mas a evolução posterior permanece bastante mais incerta. Não podemos descartar uma persistência prolongada durante todo o ano de 2027, embora um El Niño ativo até perto do final desse ano não seja, neste momento, uma previsão garantida
Mas o mais importante a destacar é: os efeitos não terminam quando as temperaturas do Pacífico regressam ao normal, uma vez que, na maior parte dos episódios, a resposta da temperatura média global surge com algum atraso, frequentemente de vários meses, com consequências sobre a precipitação, a temperatura, e, por consequência, a agricultura e os recursos hídricos a manifestarem-se durante muito mais tempo
A nível global, já temos vindo a registar temperaturas extraordinariamente elevadas, com períodos prolongados em que a média do planeta supera os +1,5ºC relativamente ao período pré-industrial. O atual El Niño deve contribuir para um aumento adicional da temperatura global, precisamente porque favorece a transferência de calor armazenado no oceano para a atmosfera, somando-se à tendência de aquecimento provocada pelas alterações climáticas

O ano de 2027 apresenta, assim, um potencial muito elevado para se tornar o mais quente desde que existem registos, (sendo praticamente certo na nossa opinião) podendo voltar a superar o limiar de +1,5ºC. Não podemos mesmo excluir vários dias com anomalias superiores a +2ºC, mas isso (ainda) é diferente de atingir essa anomalia na média anual, cenário que ainda é considerado muito pouco provável pelas projeções atuais – mas mesmo assim, não excluímos totalmente
2028 poderá igualmente continuar a apresentar temperaturas globais extremamente elevadas pois a resposta térmica do planeta a este fenómeno deve persistir, pelo menos durante os primeiros meses, podendo eventualmente prolongar. Ainda é demasiado cedo para previsões mais fiáveis a essa distância, mas o importante a salientar é que este é um fenómeno de longa duração
Parece assim cada vez mais evidente que os próximos 18 a 24 meses poderão ser particularmente relevantes para o clima global, com potencial para novos recordes e consequências significativas em várias regiões. E, perante um fenómeno desta magnitude, continuaremos a ter de acompanhar atentamente a evolução, uma vez que as relações históricas entre o El Niño e os seus impactos poderão não representar perfeitamente um episódio tão intenso

EM PORTUGAL, TAMBÉM IREMOS SENTIR OS EFEITOS?
Em Portugal, a situação é consideravelmente mais complexa em termos de previsão. Ao contrário de regiões tropicais onde a influência do El Niño é relativamente direta e consistente, a resposta atmosférica no Atlântico apresenta uma variabilidade muito maior, dependendo de outros fatores, como a posição da corrente de jato, a Oscilação do Atlântico Norte, o anticiclone dos Açores e a circulação estratosférica
Um fator muito importante é o vórtice polar estratosférico. Alguns estudos mostram que os Invernos de El Niño podem favorecer um enfraquecimento do mesmo, aumentando significativamente a possibilidade de perturbações estratosféricas e aquecimentos súbitos. No entanto a relação nem sempre é tão fácil de prever e não podemos afirmar categoricamente que vai ocorrer um SSW, e muito menos os seus efeitos
O mais importante no nosso país pode ser a precipitação. Se o anticiclone perder influência e permitir o estabelecimento de uma circulação atlântica mais favorável, poderemos ter episódios de chuva bastante significativa, à semelhança do que aconteceu no Inverno de 2025/26, uma vez que o aumento da temperatura dos oceanos contribui para uma maior disponibilidade potencial de vapor de água na atmosfera
Um El Niño não garante um Inverno chuvoso em Portugal – e quando a situação é de “território desconhecido” é melhor abordar com cautela, pois o cenário oposto (seca) também começa a “pairar”. A circulação atmosférica poderá continuar a apresentar bloqueios persistentes e até períodos prolongados de tempo seco, como temos observado neste início de Outono. Eventualmente vai chover, e quando chover pode ser “tudo de uma vez”, mas para já não sabemos quando exatamente
Há consequências que poderão chegar ao nosso país de forma muito mais indireta. As alterações nos regimes de precipitação de grandes regiões agrícolas, especialmente quando provocam secas persistentes ou inundações, podem afetar as colheitas, reduzir a disponibilidade de determinadas matérias-primas e contribuir para o aumento (significativo) dos preços de vários alimentos

Em situações mais extremas, poderão também existir perturbações no transporte, energia e comércio internacional, com possíveis efeitos sobre a inflação. Há ainda a considerar que, mesmo num planeta mais quente, em média, haverá locais em que o contrário pode acontecer – fenómenos localizados de frio mais intenso, com relação a eventual quebra no vórtice polar já mencionada
Assim, continuaremos a acompanhar este episódio durante pelo menos os próximos 18 meses, analisando não apenas as temperaturas do Pacífico, mas também a resposta da atmosfera, a circulação atlântica, o vórtice polar e as consequências sobre Portugal. Estamos perante um fenómeno histórico, sem precedentes nos estudos modernos, e quanto maior for a sua intensidade e duração, mais extremos podem ser os seus efeitos. O pico aproxima-se, mas os efeitos mais importantes deste Super El Niño vão durar, infelizmente, muito tempo…

Artigo escrito por Fábio Félix | Luso Meteo, às 8H de quarta, 14 de outubro de 2026
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