O clima este ano está a ser… estranho. Temos um super El Niño em formação, enquanto setembro de 2026 ficará para a história em Portugal: segundo o relatório preliminar divulgado pelo IPMA esta quarta-feira, foi o mais quente desde que existem registos, em 1931, e também um mês extremamente seco. Entrámos no Outono, mas o Verão parece simplesmente não querer terminar, com um anticiclone que teima em não abandonar a nossa região
Os números no relatório não mentem: A temperatura média no Continente atingiu 23,41ºC, uma anomalia de +2,91ºC face à média de 1991-2020. A temperatura máxima média chegou aos 31,03ºC, cerca de 4,21ºC acima do normal, estabelecendo igualmente um novo recorde para setembro. Foram ainda registadas duas ondas de calor, a última das quais afetou grande parte do país e prolongou-se praticamente até ao final do mês (já são 8 ondas de calor este ano…)
A precipitação praticamente não existiu durante grande parte do mês. De acordo com os dados do IPMA, setembro registou, em média, apenas 12,7 mm de chuva, cerca de 30% do valor normal, tornando-se no quinto setembro mais seco desde 2000. É uma situação particularmente preocupante numa altura em que deveria começar a aumentar a frequência das frentes atlânticas, permitindo a recuperação gradual da humidade dos solos
Pior ainda, como referimos na nossa análise publicada a 7 de outubro, o calor e a ausência de chuva parecem querer prolongar-se durante boa parte de outubro. As temperaturas poderão voltar a ultrapassar os 30ºC e até aproximar-se dos 35ºC, enquanto o anticiclone deverá continuar a dominar a circulação atmosférica, com geopotenciais extremamente elevados para esta altura do ano
Perante tudo isto, é perfeitamente legítimo perguntar: onde está o Outono chuvoso que temos vindo a prever há meses? E estará o Super El Niño a perder força ou a contrariar as expectativas? A resposta é mais complexa do que parece… A verdade é que as previsões de chuva para Portugal estão, até agora, a ser contrariadas, ou pelo menos adiadas, mas o fenómeno El Niño continua a evoluir praticamente como previsto, e os sinais para uma mudança importante da circulação atmosférica nos próximos meses não desapareceram

SUPER EL NIÑO CONTINUA A CAMINHO DE UM PICO POTENCIALMENTE HISTÓRICO
Começamos esta análise precisamente pelo Pacífico Equatorial, onde tudo isto tem origem. O “El Niño” continua a intensificar-se e as previsões não sofreram qualquer alteração significativa – prevê-se um episódio extraordinariamente forte. O aquecimento das águas equatoriais do oceano Pacífico mantém-se muito expressivo, com uma enorme quantidade de energia armazenada também abaixo da superfície, sustentando as expectativas de fortalecimento adicional durante os próximos meses
A NOAA continua a atribuir uma probabilidade superior a 90% à ocorrência de um El Niño muito forte durante o Outono e Inverno de 2026/27. Mais impressionante ainda, a previsão oficial de setembro apontava para uma probabilidade de cerca de 75% de o fenómeno atingir uma intensidade histórica, superando os valores de referência dos episódios mais fortes observados desde 1950. Na nossa opinião, contudo, essa probabilidade é superior – diríamos mesmo que é algo certo
O pico continua a ser esperado entre o final de novembro e dezembro, aproximadamente, podendo a intensidade máxima ser atingida durante o início do Inverno. É importante recordar que estamos a falar de um fenómeno oceânico e atmosférico que evolui durante vários meses, e cujo pico não representa o pico dos efeitos no tempo e no clima. Também podem existir pequenas oscilações temporárias sem que isso represente um verdadeiro enfraquecimento

Como explicámos anteriormente na nossa análise sobre o Super El Niño, este fenómeno altera profundamente a circulação tropical, a distribuição da convecção e os padrões de vento em grande parte do planeta. Essas alterações podem posteriormente propagar-se às latitudes médias, modificando a corrente de jato e favorecendo mudanças importantes na localização das depressões e anticiclones. Contudo, os efeitos não são imediatos nem iguais em todas as regiões, e Portugal é precisamente uma das áreas onde a resposta atmosférica apresenta maior variabilidade
Existe ainda uma questão essencial: se este El Niño atingir realmente uma intensidade próxima ou superior aos maiores episódios conhecidos (e é quase certo como referido) poderemos estar perante um cenário sem precedentes na história moderna. Estamos assim, de certa forma, em território desconhecido, tornando particularmente difícil antecipar todas as interações atmosféricas. Um El Niño recorde não significa automaticamente chuva recorde em Portugal, mas aumenta a importância de acompanharmos continuamente a evolução da circulação global

OUTONO CHUVOSO ADIADO? OS MODELOS CONTINUAM A MOSTRAR SINAIS DE MUDANÇA
A realidade atual é bastante diferente daquilo que esperávamos inicialmente para esta fase do Outono. O anticiclone continua extraordinariamente persistente, estendendo frequentemente a sua influência desde o Atlântico subtropical até à Europa Central e impedindo que as depressões atlânticas desçam de latitude com a regularidade necessária para trazer chuva significativa ao território continental
Aliás, as previsões para meados de outubro chegam a apresentar valores de geopotencial aos 500 hPa próximos do percentil 99, ou seja, um padrão de altas pressões em altitude extremamente invulgar para a época. Com este bloqueio instalado, a corrente de jato permanece frequentemente deslocada para Norte e as perturbações atlânticas acabam por passar demasiado longe de Portugal. Enquanto esta configuração persistir, será muito difícil termos um período verdadeiramente chuvoso

Temos, portanto, de reconhecer que as previsões anteriores para uma entrada mais precoce da chuva não se estão a concretizar. Isso não significa que todo o Outono e Inverno estejam já condenados a ser secos, mas significa que o momento previsto para a mudança foi sucessivamente adiado. E este é precisamente um dos maiores desafios das previsões de longo prazo: identificar uma tendência sazonal é bastante diferente de conseguir prever quando essa tendência começará efetivamente a manifestar-se
Contudo, há razões para não abandonarmos já o cenário de um período mais húmido. As previsões sazonais do ECMWF continuam a apresentar sinais de precipitação acima da média em Portugal durante novembro e especialmente dezembro, especialmente nas regiões Norte e Centro. Estas previsões também são corroboradas por outros centros de previsão. Apesar da persistência do anticiclone nas previsões de médio prazo, o sinal sazonal para um final de ano mais chuvoso continua presente, embora de forma difícil de antecipar – sendo ainda mais provável um inverno chuvoso
A quantidade de energia disponível no Atlântico permanece elevada, com águas relativamente quentes e potencial para transporte significativo de humidade caso a circulação se torne favorável. Se o anticiclone finalmente perder influência e permitir a aproximação regular das depressões, poderemos passar de um período muito seco para outro bastante chuvoso num “piscar de olhos. Isso não garante chuva extrema, mas mantém aberta a possibilidade de episódios de precipitação abundante e persistente

VÓRTICE POLAR, CORRENTE DE JATO E UMA ATMOSFERA CADA VEZ MAIS IMPREVISÍVEL
Olhando para a estratosfera começam também a surgir (pequenos) sinais interessantes nas previsões sazonais da circulação estratosférica, particularmente na evolução esperada do vórtice polar durante o Inverno. Algumas projeções apontam já para um possível enfraquecimento dos ventos estratosféricos durante novembro e ou dezembro, com impacto nos meses seguintes, embora nesta fase não exista qualquer confirmação de uma perturbação importante ou de um eventual colapso do vórtice
Este é um aspeto muito relevante porque episódios intensos de El Niño podem favorecer alterações na propagação de ondas atmosféricas até à estratosfera, aumentando, em determinadas circunstâncias, a probabilidade de enfraquecimento do vórtice polar. Mas devemos também dizer de forma clara: um vórtice polar mais fraco não significa necessariamente mais chuva em Portugal, uma vez que tudo dependerá da localização dos bloqueios e das depressões
É precisamente por isso que acreditamos que as previsões poderão tornar-se progressivamente mais incertas e sujeitas a alterações repentinas. À medida que o Hemisfério Norte arrefece, os contrastes térmicos aumentam, e as várias interações tornam-se imprevisíveis. O anticiclone que hoje parece praticamente impossível de deslocar pode desaparecer para outros locais, deixando-nos desprotegidos, mas, de certa forma, há também a possibilidade de resistir durante mais tempo do que os modelos inicialmente antecipam

Neste momento, continuamos a considerar provável um final de Outono mais chuvoso e, sobretudo, um Inverno com precipitação (bastante) acima do normal em Portugal, mantendo a linha geral das nossas previsões anteriores. A confiança no momento exato da transição continua reduzida e é fundamental reconhecer que a persistência do padrão atual representa um sinal que não podemos ignorar: a previsão sazonal deve ser continuamente reavaliada à luz daquilo que realmente acontece, e não mantida apenas porque foi a hipótese inicialmente escolhida
A verdadeira incógnita, para já, é perceber como a atmosfera do Atlântico Norte irá responder, e quando poderá chegar a Portugal a mudança que temos vindo a antecipar, não é perceber se teremos um super El Niño – esse é garantido, e infelizmente será algo com consequências extremas
Para já o Outono está a começar com calor e pouca chuva, mas ainda temos praticamente toda a estação pela frente e um Inverno que promete ser particularmente interessante do ponto de vista meteorológico. Será essencial acompanhar cada atualização, sem dar certezas, porque a meteorologia ainda nos poderá reservar muitas surpresas…

Análise elaborada por Fábio Félix | Luso Meteo – quinta, 8 de outubro de 2026, 8H
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