O fenómeno El Niño continua a intensificar-se muito rapidamente no Pacífico Equatorial e pode já ser considerado forte, com as anomalias de temperatura na região Niño 3.4 acima de +1 ºC. Os dados mais recentes dos modelos meteorológicos reforçam a previsão de que este poderá ser um episódio excecional, com potencial para se tornar o mais intenso de sempre (quase garantidamente o mais intenso mesmo!)
Uma das razões para esta previsão e evolução está no forte aquecimento subsuperficial do Pacífico. Uma grande área de água anormalmente quente tem vindo a deslocar-se para leste, com os ventos e a convecção a favorecerem a continuação do aquecimento à superfície. Este processo será o responsável pela amplificação do El Niño nos próximos meses
As previsões são de facto impressionantes… A probabilidade de um El Niño muito forte durante o outono e inverno de 2026/27 é extremamente elevada (100%, basicamente), enquanto a maioria dos modelos e ensambles apontam mesmo para o evento mais extremo já registado (mais de 95% de momento, virtualmente certo). Algumas previsões apresentam valores absurdos, por volta de 5ºC em relação ao normal, embora a intensidade final continue longe de poder ser determinada com precisão
Os ensembles continuam a apontar para o pico entre o final do outono e o início do inverno. Há cenários que mostram que as anomalias muito elevadas na região Niño 3.4, potencialmente próximas ou superiores a +4 ºC se devem manter até fevereiro, antes de começarem a reduzir, mas a incerteza nesta fase ainda é considerável. Assim, estes valores devem ser encarados como cenários possíveis e não como uma certeza absoluta. Há também modelos que mostram transição rápida para o oposto (La Niña) em 2027, mas isso seria notável… para já pouco provável
A influência do fenómeno não deverá terminar rapidamente depois do pico (na realidade deve começar de forma mais intensa precisamente uns meses depois). A expectativa atual é que o El Niño possa persistir pelo menos até ao final da primavera de 2027, enquanto os seus efeitos na atmosfera poderão prolongar-se pelo menos até 2028. Isto significa que 2027 poderá ser um ano de efeitos El Niño muito relevantes, enquanto 2028 poderá ser de ligeira transição, mas ainda com os sinais clássicos deste fenómeno

Por muito que gostássemos de ser otimistas, não o podemos ser: caso os modelos não estejam errados (e nesta fase dificilmente estarão, já não falta assim tanto, e a realidade tem superado previsões), os efeitos a nível global serão potencialmente catastróficos. E não, não é exagero nas palavras: desde condições de habitabilidade, até a efeitos económicos e sociais, estamos perante algo potencialmente histórico
Desde temperaturas excessivas e humidade elevada, levando a temperaturas de bolbo húmido quase insuportáveis e aumento da mortalidade em partes do planeta, seca destrutiva e fogos noutras, redução de produtividade devido ao calor, aumento da procura por energia e possíveis quebras, comprometimento significativo de colheitas, aumento generalizado de preços, e até escassez de alimentos que pode ameaçar milhões, não temos dúvida que vamos ouvir falar muito de El Niño nos próximos 2 anos. Infelizmente é a nossa maior guerra, maior que qualquer outra ativa atualmente no planeta…

QUAIS OS DADOS MAIS RECENTES EM RELAÇÃO AO SUPER EL NIÑO, E EFEITOS EM PORTUGAL E NO MUNDO?
Este é um fenómeno de escala global, e merece atenção principalmente, obviamente, a nível global. Este fenómeno altera significativamente a circulação atmosférica, com redistribuição de calor e humidade pelo planeta. Não significa que todos os locais fiquem mais quentes ou secos: algumas regiões tendem a apresentar muito mais precipitação, enquanto outras poderão ter risco de seca extrema. Quanto mais intenso o fenómeno, mais evidentes se podem tornar estas alterações – razão pela qual nos preocupa esta situação, dada a previsão anteriormente explicada
Historicamente falando, os sinais são particularmente claros e relevantes em algumas regiões: Durante um episódio de aquecimento na zona El Niño tende a chover mais no Equador e Peru, no sul do Brasil e centro da Argentina e em algumas zonas de África, enquanto aumentam as condições secas no norte da América do Sul, na América Central, no Sudeste Asiático, em partes do norte da Austrália e partes da África Austral
Há já secas muito relevantes no planeta, e um El Niño muito forte pode agravar situações já problemáticas, reduzindo os níveis dos rios e aumentando o risco de incêndios. Esta situação pode ser mais preocupante no Sudeste da Ásia e na América Central\Sul. Na Europa, pelo contrário, tende a haver mais chuva, pelo que a seca atual pode ser temporária, no Verão. Noutras regiões poderá acontecer precisamente o contrário, com precipitação excessiva e inundações…

E depois há Portugal, e, sobre o nosso país, é fundamental ter alguma cautela na análise: o El Niño não determina, por si só, o nosso clima. A influência do ENSO sobre Portugal é mais indireta e, historicamente, relativamente fraca, havendo outros fatores, como NAO, muito mais importante para percebermos que tipo de tempo teremos em Portugal. Ainda assim, um El Niño muito forte pode alterar a circulação atmosférica à escala global e modificar as probabilidades de determinados padrões no Atlântico – um deles, precisamente, o NAO
Há sinais evidentes que merecem acompanhamento: as previsões sazonais continuam a sugerir uma possibilidade de precipitação acima da média, ou mesmo muito acima da média em partes da Península Ibérica durante a segunda metade do Outono e no Inverno, embora não possamos afirmar já com certezas que Portugal terá garantidamente um inverno excecionalmente chuvoso. A posição da corrente de jato e o comportamento da NAO serão decisivos (no fundo onde se vai posicionar o anticiclone). Um El Niño desta magnitude terá impactos, certamente, nesses fatores que influenciam diretamente o clima por cá
O risco é muito mais evidente no Noroeste da Península, pelo que as regiões habituais (a Norte do sistema montanhoso Montejunto-Estrela, podem ser as zonas de maior risco de cheia no Inverno). Alguns modelos sugerem que a alta pressão desaparece da zona dos Açores, e surge muito mais a Sul, no fundo como aconteceu durante o corredor de tempestades de 2026. Temos uma certeza: Se houver algo do género este ano, irá chover muito mais, pois a água precipitável disponível será muito maior, e os rios atmosféricos serão, certamente, mais intensos. A única dúvida é mesmo perceber, então, a posição do anticiclone

Depois de um verão marcado por precipitação reduzida em grande parte do território, uma mudança rápida para um padrão mais húmido poderia ter consequências significativas. Se a circulação atlântica se tornar particularmente dinâmica, como mostram algumas simulações poderemos voltar a ter episódios de chuva muito intensa, rios a subirem muito rapidamente e risco de cheias e inundações persistentes. E, num cenário mais extremo, não seria impossível observar tempestades Atlânticas semelhantes à Kristin (esperamos que não, claro!)
O risco potencial resulta da combinação de vários ingredientes que poderão surgir durante o outono e inverno: os oceanos extraordinariamente aquecidos, como nunca, muita água precipitável disponível na atmosfera, contrastes térmicos elevados entre diferentes latitudes e alterações na posição e intensidade da corrente de jato. Se a NAO- (anticiclone afastado) se tornar frequente como está previsto, a Península Ibérica poderá ficar mais exposta à passagem de depressões atlânticas e frentes de ar associadas
Por isso este El Niño será acompanhado com toda a atenção nos próximos meses, e não podemos negar a preocupação. O sinal mais robusto neste momento é a extraordinária intensidade que o fenómeno poderá atingir e a sua provável persistência. Os efeitos concretos em Portugal dependerão, sobretudo, da forma como o Atlântico Norte responder, o que não é 100% previsível ainda, pelo que iremos acompanhando!

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo, às 9H de 15 de agosto de 2026
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