O calor vai regressar a Portugal no final de outubro? Tudo indica que sim, com máximas que poderão atingir os 27 a 30ºC em algumas regiões, especialmente no Centro e Sul, à medida que o anticiclone recupera influência sobre a Península Ibérica. Depois de alguns dias mais frescos, e com alguma chuva pelo meio, as previsões voltam a apontar para temperaturas bastante acima da média, numa altura em que já estamos praticamente a entrar em novembro
Antes disso, contudo, teremos uma situação meteorológica muito diferente no Norte da Europa, com a tempestade Austen a evoluir em direção ao Canal da Mancha, num processo de ciclogénese (explosiva). As previsões apontam para rajadas que poderão ultrapassar os 140 km/h no Sudoeste da Grã-Bretanha e Noroeste de França, com possibilidade de valores ainda superiores nos locais mais expostos. Portugal deverá escapar aos efeitos mais intensos, recebendo apenas uma frente enfraquecida entre quinta e sexta-feira
Posteriormente, uma perturbação atlântica que está a ser acompanhada pelo Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos (NHC), para já com baixa probabilidade de desenvolvimento tropical, poderá interagir com a corrente de jato polar. Esta interação poderá contribuir para uma reorganização da circulação Atlântica, favorecendo o reforço do anticiclone e a formação de uma dorsal africana sobre a Europa Ocidental
Naturalmente, esta evolução ainda não está totalmente confirmada, e as maiores dúvidas surgem nas regiões Norte e no litoral, onde a nebulosidade, o vento marítimo e a proximidade de algumas perturbações poderão limitar o aquecimento. Mais a Sul, contudo, a confiança num período bastante mais quente é elevada, com os ensembles que temos vindo a acompanhar a apresentar probabilidades próximas dos 80% para máximas superiores a 25ºC e perto de 30% para valores que atinjam ou ultrapassem os 30ºC em algumas regiões
O vento poderá soprar de Leste durante alguns destes dias, favorecendo temperaturas elevadas também junto à faixa costeira, incluindo praias onde habitualmente já seria normal encontrarmos tempo bastante mais fresco. Sol, pouco vento e temperaturas próximas dos 30ºC praticamente em novembro? Parece estranho, mas é uma possibilidade real, e mais um sinal de que este Outono continua a desafiar a lógica, e o que é normal…

CALOR NO FIM DE OUTUBRO E INÍCIO DE NOVEMBRO – ANORMAL?
Sim, temperaturas próximas dos 30ºC nos últimos dias de outubro são bastante anormais, especialmente quando ocorrem de forma relativamente abrangente e durante vários dias. A temperatura média vai descendo progressivamente ao longo do mês, as noites tornam-se mais longas e a energia solar é cada vez menor. Contudo, em vez de assistirmos à habitual transição para condições mais frescas e húmidas, voltamos a ter previsões que parecem mais próprias do início de setembro
E não falamos apenas de calor no Interior: se o vento soprar de Leste ou Nordeste poderá ocorrer aquecimento também em algumas regiões costeiras. Nesse cenário, poderemos ter condições excelentes para praia no final de outubro e eventualmente nos primeiros dias de novembro, com muito sol e temperaturas que, em determinados locais, poderão ser superiores às registadas em muitos dias de Verão, quando o vento marítimo e a nebulosidade limitam o aquecimento
A temperatura da água do mar também nos chama à atenção: No Algarve, o mar continua relativamente ameno para a altura do ano, semelhante ao registado no Verão, com temperaturas por volta de 22\23ºC, mantendo condições que ainda podem ser agradáveis para banhos. Também na costa ocidental se registam valores próximos dos 16 a 18ºC, havendo zonas onde a água se mantém relativamente quente para a época

Poderíamos chamar a isto um Verão de São Martinho, embora o episódio previsto surja antes da “data tradicional”, e com temperaturas que poderão ser particularmente elevadas. O chamado Verão de São Martinho corresponde habitualmente a um período de tempo estável e ameno durante o Outono, mas neste caso estamos a falar de mais um episódio de calor significativo, depois de semanas marcadas por temperaturas excecionais. Parece realmente que o Verão teima em não terminar em Portugal
E a verdade é que começamos a ficar preocupados, não propriamente pelo calor isoladamente, mas sobretudo pela ausência persistente de precipitação significativa. Apesar da chuva abundante registada em determinados períodos no início do ano, os solos apresentam sinais de secura em várias regiões, com crescente preocupação relativamente à disponibilidade de água para a vegetação e algumas culturas

O que virá depois continua a ser uma incógnita. As previsões sazonais ainda apresentam sinais favoráveis a um período mais chuvoso durante o restante Outono e particularmente no Inverno, mas as alterações da circulação atmosférica têm sido sucessivamente adiadas. Tanto podemos continuar com um anticiclone persistente e entrar numa situação de seca preocupante, como assistir a uma mudança relativamente rápida para um padrão muito mais chuvoso, eventualmente com episódios de precipitação intensa
Para já, o resumo é relativamente simples: entre quinta e sexta-feira deverá chover um pouco, sobretudo no Norte e Centro, enquanto o fim-de-semana poderá começar ainda relativamente fresco e húmido nas regiões mais a Norte, eventualmente com alguma nebulosidade baixa ou chuvisco
No Centro e Sul, a tendência será para uma subida mais evidente das temperaturas, especialmente a partir de domingo. Depois de dia 25 poderemos entrar num novo período de calor anormal, cuja intensidade e duração iremos confirmar na próxima previsão semanal completa

INUNDAÇÕES EM ESPANHA, RECORDES DE CHUVA EM FRANÇA… PORQUE É QUE NÃO CHOVE EM PORTUGAL?
Nos últimos dias temos acompanhado situações de precipitação extraordinariamente intensa em Espanha, especialmente na região de Valência, com acumulados superiores a 700 litros por metro quadrado em menos de 24 horas, provocando inundações graves. Em França também surgiram episódios de chuva muito intensa, com acumulados elevados em pouco tempo. Entretanto, em Portugal continuamos praticamente sem chuva significativa em grande parte do território. Como se explica esta diferença?
A resposta está na circulação atmosférica: A depressão isolada em altitude, conhecida como DANA, favoreceu a formação de áreas de precipitação muito intensa sobre o Mediterrâneo, onde a disponibilidade de humidade é elevada e a água do mar permanece bastante quente (anormalmente quente), favorecendo enorme desenvolvimento vertical e precipitação muito intensa, especialmente quando as células persistem sobre as mesmas regiões (como aconteceu em Córsega, França)
Em Portugal a situação é diferente… Apesar de também termos um oceano quente e capaz de fornecer grandes quantidades de vapor de água, não estamos diretamente expostos ao Mediterrâneo nem tivemos a mesma configuração atmosférica favorável a chuva torrencial. Além disso, o anticiclone tem permanecido numa posição que dificulta a aproximação das depressões mais ativas e limita o desenvolvimento das frentes
O mesmo acontece com a tempestade Austen, que deverá provocar vento muito forte no Reino Unido e em regiões de França. A circulação mais intensa permanece a Norte, enquanto Portugal continua protegido pela influência do anticiclone. E, depois da passagem desta depressão, tudo indica que as altas pressões poderão recuperar novamente, trazendo mais sol e, eventualmente, o calor
Assim, aproximamo-nos de novembro com um cenário que continua a surpreender: tempestades intensas em várias regiões da Europa, um Atlântico bastante ativo mais a Norte e, em Portugal, a possibilidade de voltarmos a ter temperaturas próximas dos 30ºC e tempo de praia. Não sabemos ainda quando o anticiclone irá finalmente ceder de forma duradoura, mas continuaremos a acompanhar os modelos e os sinais de mudança. Até lá, parece que o tempo chuvoso terá de esperar…

Artigo publicado por Fábio Félix | Luso Meteo – 21 de outubro de 2026 – 18H
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