Ciclogénese explosiva no Atlântico – certamente muita chuva em Portugal? Não… O anticiclone continua mais forte do que esperávamos! Irá gerar uma enorme diferença de temperatura entre as latitudes subtropicais, onde persistem massas de ar bastante quentes, e as regiões polares, onde o frio começa a intensificar-se. Este contraste vai favorecer uma corrente de jato muito ativa no Atlântico Norte e poderá levar, nas próximas duas semanas, à formação de várias depressões intensas
Uma dessas depressões poderá formar-se já entre quinta e sexta-feira, dias 22 e 23 de outubro, nas proximidades do Golfo da Biscaia e do Canal da Mancha, deslocando-se posteriormente para as regiões mais a Norte. As previsões começam a convergir para efeitos mais significativos na Grã-Bretanha, especialmente no País de Gales e em Inglaterra, tendo sido nomeada como “Austen” pela Met-Office
Não é propriamente uma novidade nesta região da Europa, habituada a depressões profundas e ventos muito fortes durante o Outono e Inverno. O que torna esta situação interessante é o contraste com a estabilidade das últimas semanas, durante as quais foram registadas pressões atmosféricas muito elevadas, próximas dos 1040 hPa em algumas regiões europeias. Agora, a pressão no centro da nova depressão poderá descer para valores inferiores a 980 hPa, eventualmente perto dos 975 hPa!
Nas regiões mais afetadas, especialmente nas costas expostas de Inglaterra, País de Gales e possivelmente Irlanda e Norte de França, algumas simulações apontam para rajadas entre 120 e 160 km/h, embora os valores mais elevados ainda estejam longe de ser garantidos. Portugal ficará bastante mais afastado da circulação principal, e assim apenas sentirá uma frente associada a esta depressão, mas enfraquecida. Devera atravessar o território entre a noite de quinta e sexta de manhã, com períodos de chuva, e também agitação marítima
Será, aliás, a segunda de três frentes previstas para Portugal esta semana. A primeira deverá chegar durante a noite desta terça-feira, a segunda entre quinta e sexta-feira, e uma terceira poderá aproximar-se entre sábado e domingo. Todas deverão chegar relativamente enfraquecidas, mas poderão finalmente trazer alguma precipitação “típica de outubro”, embora apenas às regiões do costume – a Norte do sistema Montejunto-Estrela

TEMPESTADE AUSTEN – O QUE É UMA CICLOGÉNESE EXPLOSIVA?
A tempestade foi agora nomeada e recebeu o nome Austen, primeiro da lista do serviço Britânico. Se for nomeada inicialmente pelo grupo que inclui França, Portugal e Espanha, poderá chamar-se Bruna, uma vez que Adam já foi utilizado nesta temporada. Tudo dependerá da trajetória final, da intensidade e dos critérios de aviso meteorológico (Atualização – nomeada agora como AUSTEN pela MetOffice)
Mas o que é, afinal, uma ciclogénese explosiva? Trata-se de um processo em que uma depressão sofre uma descida muito rápida da pressão atmosférica, habitualmente definida por uma queda de cerca de 24 hPa em 24 horas. Esta intensificação pode ocorrer quando existe uma forte diferença de temperatura entre massas de ar e uma corrente de jato particularmente ativa, favorecendo o desenvolvimento rápido da circulação depressionária
No caso desta semana, cerca de 80% dos membros dos conjuntos de previsão que temos vindo a acompanhar apontam para um aprofundamento muito rápido da depressão, potencialmente compatível com uma ciclogénese explosiva. É um sinal significativo, embora ainda seja necessário confirmar a queda efetiva da pressão no intervalo de 24 horas. A localização e intensidade final continuam a apresentar alguma dispersão, especialmente porque pequenas alterações na trajetória poderão mudar bastante as regiões afetadas
Para além do vento, esperamos também agitação marítima muito significativa no Atlântico Nordeste, com cenários que apontam para ondas significativas próximas dos 10 metros nas regiões mais expostas e ondas individuais que poderão atingir ou ultrapassar os 15 metros. Parte desta energia propagar-se-á para Sul, pelo que a costa portuguesa também deverá sentir um aumento da ondulação durante a segunda metade da semana, embora com valores bastante inferiores aos previstos perto do núcleo da tempestade

E EM PORTUGAL, ONDE VAI CHOVER?
A primeira frente deverá aproximar-se durante a noite de terça para quarta-feira, dias 20 e 21, trazendo chuva geralmente fraca, sobretudo a Norte do Mondego. Os distritos de Viana do Castelo, Braga e Porto deverão ser os mais favorecidos, podendo também ocorrer alguma precipitação em Aveiro, Vila Real, Bragança e Viseu. Mais a Sul, a frente deverá chegar bastante fragmentada, sendo pouco provável que produza acumulados relevantes
Na quarta-feira a tendência será para uma melhoria gradual, com abertas e temperaturas relativamente frescas para aquilo a que nos habituámos neste início de outubro. Não esperamos chuva contínua, nem acumulados particularmente elevados. Em várias regiões os valores poderão ficar abaixo dos 5 l/m², e algumas localidades poderão praticamente não receber precipitação
A segunda frente, prevista entre quinta e sexta-feira, dias 22 e 23, poderá ser um pouco mais ativa e chegar com precipitação a uma área ligeiramente mais extensa, eventualmente a Norte do Tejo. O Minho, Douro Litoral e zonas montanhosas deverão voltar a concentrar os maiores acumulados, mas poderá chover também em Coimbra, Leiria, Castelo Branco e, de forma mais dispersa, nos distritos de Lisboa e Santarém. Não esperamos, contudo, grandes quantidades de chuva, sendo possíveis valores localmente próximos dos 10 l/m² nas regiões mais favorecidas
Por fim, entre sábado e domingo poderá aproximar-se uma terceira frente, novamente com maior probabilidade de chuva a Norte, visto que esta deve mesmo vir de Norte. O Minho e Douro Litoral têm maior probabilidade de chuva, o resto do país menos O Alentejo e Algarve deverão continuar praticamente secos, salvo algum chuvisco ocasional
O vento poderá intensificar-se temporariamente de Sudoeste e a ondulação aumentar para valores da ordem dos 3 a 5 metros na costa ocidental. Será uma semana mais variável, como tínhamos dito, mas longe de representar o regresso de chuva abundante a todo o país

EM PORTUGAL ESTAMOS A SALVO DESTAS TEMPESTADES?
Para já, sim! E a explicação é a mesma de praticamente todo este início de Outono: o anticiclone. Apesar de alguma descida em latitude da corrente de jato, continuamos sob influência de uma circulação atlântica que favorece a passagem das depressões mais profundas a Norte, num padrão geralmente associado à fase positiva da Oscilação do Atlântico Norte (NAO+). O anticiclone continua suficientemente próximo para impedir que as depressões mais ativas nos atinjam diretamente
Depois da passagem desta perturbação existem sinais de que as altas pressões poderão voltar a reforçar-se, favorecendo uma breve subida das temperaturas no início da próxima semana. Alguns cenários mostram novamente ar bastante quente em altitude, pelo que não podemos excluir tardes com temperaturas bem acima da média nos últimos dias de outubro
Não podemos concluir que as depressões vão continuar sempre afastadas de Portugal. À medida que avançamos pelo Outono e entramos no Inverno, a circulação atmosférica tende a sofrer alterações, e as depressões atlânticas podem alcançar latitudes mais baixas. A questão não é apenas saber se o anticiclone vai ceder, mas quando e durante quanto tempo, porque disso dependerá a quantidade de chuva que teremos nos próximos meses
Há ainda alguns sinais iniciais de alterações na circulação estratosférica já no início de novembro, e no comportamento do vórtice polar. Para já são sobretudo uma curiosidade meteorológica, sem indicação clara de consequências importantes à superfície. Contudo, num ano marcado por um El Niño muito intenso, será interessante acompanhar a possibilidade de perturbações mais significativas durante o Inverno. Existe uma relação estatística entre o ENSO e episódios de SSW (aquecimento súbito da estratosfera)

É precisamente por isso que o restante Outono e o próximo Inverno nos preocupam por duas razões diferentes. Se o anticiclone continuar a resistir, poderemos entrar numa situação de seca progressivamente mais preocupante, sobretudo caso novembro e dezembro também apresentem precipitação muito abaixo da média. Por outro lado, se a circulação atlântica conseguir finalmente estabelecer-se, a disponibilidade de humidade poderá favorecer episódios de chuva abundante, alguns potencialmente intensos
Não significa que a atmosfera tenha de compensar obrigatoriamente os meses secos com chuva excessiva. Contudo, num contexto de oceanos muito quentes, e com um El Niño extraordinariamente intenso a influenciar a circulação global, existem “ingredientes” que merecem atenção redobrado caso se estabeleça um padrão favorável à passagem frequente de depressões (como no início do ano)
Para já, o anticiclone continua a vencer em Portugal, enquanto mais a Norte o Atlântico se prepara para uma sequência potencialmente muito ativa de ciclogéneses (possibilidade de mais de uma tempestade nomeada). Teremos alguma chuva durante esta semana, mais vento e maior agitação marítima, mas nada de relevante. Resta perceber se, nas próximas semanas, a corrente de jato finalmente desce de latitude ou se continuamos com a seca. Ambos os cenários se mantêm em cima da mesa!

Artigo elaborado por Fábio Félix | Luso Meteo a 20 de outubro de 2026 às 7:20H – atualizado às 11:18h
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