Tempestades, ciclones, inundações – o tempo na Europa esta semana será “louco” e muito dinâmico, com perturbações a “varrerem” várias regiões com precipitações muito intensas, impulsionadas pelo aquecimento dos oceanos e aumento da água precipitável. Vamos a mais detalhes…
A região de Valência, em Espanha, está novamente entre as mais afetadas. Entre domingo e esta segunda-feira, 19 de outubro, algumas estações da rede meteorológica AVAMET registaram acumulados superiores a 600 litros por metro quadrado em menos de 24 horas, valores absolutamente extraordinários que provocaram inundações graves em várias localidades da Comunidade Valenciana
Em Pego, na província de Alicante, foram registados cerca de 638 l/m² em 24 horas, com valores semelhantes em Forna. Entretanto, outras atualizações apontam para acumulados ainda superiores em algumas estações. A dimensão total dos danos continua a ser avaliada, mas os relatos são preocupantes, com viaturas submersas, habitações inundadas, estradas cortadas e várias operações de resgate
Mais uma situação de cheia rápida com consequências graves, numa região que tem sido repetidamente afetada por episódios extremos (Riu Girona als Poblets (la Marina Alta) (
Elena Gomez )
A instabilidade não deverá ficar por aqui. França poderá ser a o próximo país a enfrentar precipitação muito intensa, particularmente no Sul, junto à costa Mediterrânica e nas regiões montanhosas das Cévennes. As previsões apontam para um agravamento entre segunda e terça-feira, com alguns modelos de alta resolução a apresentarem cenários localmente extremos, entre 250 e 400 l/m² em cerca de 24 horas
Estes valores mais elevados ainda carecem de confirmação, mas mesmo acumulados inferiores poderão provocar cheias e inundações

Posteriormente, entre terça e quarta-feira, a instabilidade deverá concentrar-se também em Itália, particularmente nas regiões Norte e Noroeste, com possibilidade de chuva forte, trovoadas e acumulados significativos. Os mapas dos modelos meteorológicos mostram bem a progressão das áreas de precipitação sobre o Mediterrâneo Ocidental, enquanto previsões de maior resolução destacam regiões como a Ligúria e o Piemonte, onde o relevo pode reforçar bastante a precipitação (200\300l/m2 em 24 horas são possíveis)
O que têm estas regiões em comum? Todas estão expostas à influência do mar Mediterrâneo, que permanece muito quente depois de vários meses com temperaturas acima da média. A água quente favorece a evaporação e aumenta a disponibilidade de humidade para alimentar as tempestades. Num planeta cada vez mais quente, a capacidade da atmosfera para transportar vapor de água também aumenta, criando condições para episódios de precipitação potencialmente mais intensos
E Portugal? Por cá, parece que teremos apenas umas gotas de chuva, principalmente nas regiões Norte e Centro. Por um lado, felizmente escapamos aos fenómenos extremos que estão a afetar outras regiões europeias. Por outro, depois de um setembro extraordinariamente quente e seco e de uma primeira metade de outubro praticamente sem chuva significativa, esta precipitação já começa realmente a fazer falta. E há algo ainda mais surpreendente: alguns modelos voltam a mostrar temperaturas próximas dos 30ºC nos últimos dias do mês

TEMPESTADE/CICLONE (CICLOGÉNESE EXPLOSIVA) NO FINAL DA SEMANA NO NORTE DA EUROPA
Enquanto o Mediterrâneo enfrenta episódios de chuva intensa, o Atlântico Norte prepara-se para uma situação bastante diferente. Entre quinta e sábado, dias 22 a 24 de outubro, poderá formar-se uma depressão muito profunda nas proximidades da França e das Ilhas Britânicas, com possibilidade de intensificação rápida, num processo conhecido como “ciclogénese explosiva”
Os modelos continuam a apresentar diferenças significativas na localização e na intensidade final, mas existe um sinal relativamente consistente para uma depressão com pressão central próxima dos 975 hPa, eventualmente inferior, acompanhada por um forte gradiente de pressão. Em algumas simulações, as rajadas ultrapassam os 130 km/h, podendo atingir valores ainda superiores nas costas mais expostas
O modelo ARPEGE, por exemplo, apresenta uma depressão bastante cavada nas proximidades do Canal da Mancha durante sexta-feira, enquanto outras simulações deslocam o centro um pouco mais para Norte, em direção ao Sul de Inglaterra. Esta diferença poderá alterar significativamente a distribuição dos ventos mais fortes, colocando a França ou o Reino Unido entre os territórios potencialmente mais afetados
Se o sistema reunir os critérios de nomeação e for primeiro nomeado por um serviço meteorológico do grupo europeu a que pertencem França, Portugal e Espanha, poderá receber o nome Bruna, o próximo da lista depois de ADAM. Caso seja nomeado inicialmente pelo grupo do Reino Unido e Irlanda, será utilizada a lista desse grupo. Para já, portanto, ainda não existe confirmação do nome nem dos impactos finais – é algo a acompanhar com muita atenção…
O que parece mais provável é que Portugal fique afastado da circulação mais intensa deste ciclone. Poderemos notar uma intensificação do vento de Sudoeste, alguma precipitação sobretudo no Norte e Centro, e maior agitação marítima na costa ocidental. Contudo, nada aponta atualmente para uma situação de temporal comparável à prevista mais a Norte. Mais uma vez, o anticiclone deverá continuar suficientemente próximo para nos proteger dos efeitos mais significativos, mas também para limitar bastante a quantidade de chuva

PORTUGAL PODE VOLTAR A TER CALOR EXCECIONAL NO FINAL DE OUTUBRO?
E é precisamente aqui que surge a parte mais surpreendente das previsões. Depois da passagem deste ciclone, vários cenários mostram o anticiclone a recuperar influência sobre a Península Ibérica, acompanhado por uma nova subida das temperaturas em altitude, precisamente quando nos aproximamos do final de outubro
Modelos como ICON apresentam sinais de entrada de uma massa de ar bastante temperada pelo Sudoeste da Península, enquanto outras simulações mostram valores de 14 a 18ºC aos 850 hPa, aproximadamente 1500 metros de altitude, em algumas regiões ibéricas entre 25 e 28 de outubro. São valores muito elevados para a época, embora a extensão desta massa de ar até Portugal continue a variar entre modelos e atualizações
E quanto poderemos ter junto à superfície? Dependerá bastante da humidade, nebulosidade e direção do vento. Contudo, algumas previsões admitem máximas próximas dos 29 a 32ºC, especialmente nos locais habitualmente mais quentes do Interior e dos vales, caso se confirme uma circulação favorável e períodos prolongados de sol

Seria mais um episódio de calor extraordinário num mês que já apresentou temperaturas próximas dos 36ºC em algumas regiões. Se esta nova subida se confirmar, outubro de 2026 poderá terminar entre os mais quentes desde que existem registos, eventualmente disputando mesmo o primeiro lugar. Será necessário, naturalmente, esperar pelos dados finais do IPMA para determinar se existe ou não um novo recorde mensal
O mais preocupante continua a ser a persistência do padrão anticiclónico. Já estamos na segunda metade de outubro e, apesar de algumas interrupções com ar mais fresco, trovoadas ou frentes atlânticas, continuamos sem uma verdadeira sequência de dias chuvosos em grande parte de Portugal Continental
Será que estamos perante o início de uma situação de seca mais prolongada? Para já não podemos afirmá-lo, mas a ausência de precipitação, conjugada com temperaturas elevadas e maior evapotranspiração, tem contribuído para a secura dos solos. É uma situação que merece atenção, sobretudo porque nos aproximamos da época do ano em que deveria ocorrer uma recuperação mais consistente das reservas de água
Há também algo que nos começa a preocupar nas previsões de longo prazo. Os modelos sazonais continuam a apresentar sinais de um Outono e Inverno potencialmente mais chuvosos, mas, à medida que nos aproximamos das datas inicialmente previstas para a mudança, o início desse período húmido tem sido sucessivamente adiado

A questão principal continua a ser perceber se a corrente de jato polar conseguirá finalmente estabelecer uma circulação mais zonal e em latitudes suficientemente baixas para permitir a passagem sucessiva de frentes sobre Portugal, ou se o anticiclone continuará a recuperar influência depois de cada pequena alteração
Entretanto, existem outros fenómenos que iremos continuar a acompanhar, incluindo o supertufão Champi no Pacífico, que poderá tornar-se um dos ciclones tropicais mais intensos dos últimos anos, a evolução do Super El Niño e a possibilidade de desenvolvimento de um novo ciclone tropical no Atlântico. Este último não apresenta, para já, ameaça direta a Portugal, mas poderá influenciar a circulação nas latitudes médias caso venha a interagir com a corrente de jato
Para já, a grande diferença entre Portugal e outras regiões da Europa continuará a ser a chuva. Enquanto Espanha, França e Itália enfrentam episódios de precipitação muito intensa e o Norte da Europa se prepara para uma possível tempestade de vento, por cá continuaremos com precipitação pouco significativa, temperaturas relativamente amenas e até possibilidade de novo calor anormal no final do mês

Artigo escrito por Fábio Félix | Luso Meteo em 19 de outubro de 2026 às 9H
Se desejar ajudar com donativos para o projeto, para suportar custos de website\manutenção e serviços de subscrição para vos trazer o melhor conteúdo pode fazê-lo, ficamos muito agradecidos! Pode fazê-lo através de MBWay para 918260961, ou IBAN para PT50 0007 0000 0029 3216 7422 3
Especial agradecimento à WebDig, o nosso serviço de alojamento do website – altamente recomendado, com uma fiabilidade e apoio incríveis!

