A chuva deve finalmente regressar a Portugal na próxima semana, com a descida em latitude da frente polar. Assim, uma ou mais frentes atlânticas podem atravessar o território a partir de terça-feira, 20 de outubro, numa altura em que o anticiclone começa a apresentar sinais de enfraquecimento. Mas será desta que a chuva regressa de forma mais persistente?
Antes disso teremos um fim-de-semana marcado por descida das temperaturas, mas também por vento de Leste/Nordeste bastante forte, especialmente no domingo, dia 18, com rajadas que poderão ultrapassar os 100 km/h nas terras mais altas. A combinação de vento intenso, baixa humidade relativa e vegetação bastante seca deverá agravar significativamente o perigo de incêndio, que poderá atingir níveis máximos em várias regiões, como referimos na previsão semanal habitual (AQUI)
A mudança de regime é provocada por uma depressão retrógrada, com origem na região da Europa Central, que deverá deslocar-se progressivamente para Oeste, transportando uma massa de ar bastante mais fresca e alguma humidade para a Península Ibérica. Não descartamos a ocorrência de instabilidade localizada durante o fim-de-semana, eventualmente com alguns aguaceiros e trovoadas, mas a previsão não aponta, para já, para precipitação generalizada ou significativa – apenas alguns borrifos
A interação desta perturbação com a circulação atlântica poderá finalmente obrigar o anticiclone a deslocar-se para latitudes mais baixas, abrindo caminho à aproximação de depressões associadas à frente polar. O padrão que tem favorecido o fortalecimento do anticiclone poderá ser temporariamente interrompido, permitindo a entrada de uma ou mais frentes sobre Portugal. Será mais “permanente” ou apenas uma abertura? É essa a dúvida atual!
Importa recordar que esta possibilidade de mudança já estava prevista na nossa análise mensal para outubro, publicada no início do mês. Referimos nessa altura uma tendência para condições progressivamente mais húmidas a partir de aproximadamente 20 a 22 de outubro, com potencial para maior atividade atlântica nos últimos dez dias do mês. Os sinais começam agora a ganhar alguma consistência nas previsões de médio prazo, embora a confiança permaneça muito reduzida, como iremos explicar de seguida – continue a ler para mais informação!

DEPOIS DO CALOR EXCECIONAL, FRENTES ATLÂNTICOS E TEMPO NORMAL?
O calor registado nos últimos dias está a ser pouco comum para meados de outubro, com temperaturas que chegaram, por exemplo, aos 35,7ºC em Alcochete, no dia 14, e valores acima dos 30ºC em várias outras regiões.Nesta altura em que as temperaturas máximas deveriam estar já bastante mais baixas, especialmente no Norte e Centro, e em que seria normal termos maior frequência de dias chuvosos (falamos de anomalias superiores a +10ºC em alguns casos)
Este período de temperaturas muito elevadas parece agora aproximar-se do fim: A entrada de uma massa de ar mais fresca, inicialmente associada à circulação retrógrada sobre a Europa, deverá provocar uma descida progressiva das temperaturas durante o fim-de-semana, mais evidente nas regiões de Interior, e mais a Norte, onde o aquecimento também foi signficativo
Apesar de falarmos da “frente polar”, não esperamos propriamente frio, pelo menos para já. O que parece mais provável é um regresso gradual a temperaturas próximas dos valores normais para outubro, especialmente durante as tardes, com máximas mais baixas por efeito da nebulosidade e noites que até podem continuar relativamente amenas onde houver maior nebulosidade. De forma geral, contudo, esperamos temperaturas até 10\12ºC mais baixas do que temos registado
Entre, aproximadamente, 21 e 25 de outubro, boa parte dos cenários de previsão nos modelos apontam para temperaturas, assim, muito mais próximas da média, mesmo que a chuva consiga ou não chegar a todas as regiões. Será, finalmente, uma pequena amostra de Outono, depois de um setembro historicamente quente e de uma primeira metade de outubro que mais parece uma continuação do Verão…

QUANTA CHUVA PODEREMOS TER? E É PARA CONTINUAR?
A deslocação da depressão retrógrada para Oeste e a sua possível interação com o Atlântico que irão provocar uma alteração do estado do tempo são previsões sempre complexas. Como já referimos o anticiclone poderá ser forçado a descer de latitude, permitindo que a corrente de jato e as perturbações associadas ao jato polar se aproximem de Portugal, com possibilidade de chegada de uma ou mais frentes a partir de terça-feira, dia 20
Numa situação de circulação de Oeste, as regiões Norte e Centro deverão ser as mais favorecidas pela precipitação, especialmente o Minho, Douro Litoral e zonas montanhosas. Mais a Sul, a quantidade de chuva dependerá da latitude alcançada pelas frentes, que, para já, podem ter pouca força. Contudo, ainda é demasiado cedo para previsões concretas – basta um maior casamento de uma depressão nesta complexa interação, e passa a estar em cima da mesa um cenário de chuva mais intensa e generalizado
A confiança nas previsões está anormalmente baixa, como identifica o nosso algoritmo próprio multi-modelo a uma distância de cerca de sete dias. Existe uma dispersão muito significativa entre os modelos, sobretudo no posicionamento do anticiclone e nos valores de geopotencial sobre Portugal. Pequenas diferenças poderão determinar se teremos apenas uma frente fraca ou uma sequência de dias mais chuvosos e ventosos
Apesar desta incerteza, continuam a existir sinais de um final de outubro progressivamente mais favorável à precipitação, precisamente como temos vindo a antecipar nas nossas previsões mensais. No entanto ainda não conseguimos afirmar que o Outono se vai instalar definitivamente, uma vez que o anticiclone poderá recuperar influência e voltar a bloquear a circulação Atlântica
Para já, o calor excecional dos últimos dias parece finalmente ter os dias contados, com temperaturas mais próximas do normal para outubro. Quanto à chuva, continuamos perante uma previsão particularmente difícil, num ano de circulação atmosférica muito invulgar. Consideramos provável que o anticiclone agora se desloque para latitudes mais elevadas e abra mais espaço à chuva, mas iremos agora observar a transição real, e como se irá processar para informação mais concreta

E NAS ILHAS? AÇORES COM MAIS CHUVA, MADEIRA AINDA RELATIVAMENTE ESTÁVEL
AÇORES: No arquipélago a situação será bastante mais instável do que no Continente, com passagem de algumas perturbações atlânticas e períodos de chuva ou aguaceiros, por vezes fortes. Para já, existem mesmo avisos de precipitação para os grupos Ocidental e Central nesta quinta-feira, dia 15, com possibilidade de acumulados significativos em algumas ilhas
Ao longo dos próximos 7 a 10 dias a tendência continuará a favorecer alguma variabilidade, com alternância entre períodos de chuva, vento e abertas. A proximidade crescente da corrente de jato poderá facilitar a passagem de novas frentes durante a próxima semana, especialmente nas ilhas dos grupos Ocidental e Central. As temperaturas deverão continuar relativamente amenas, sem indicação para frio significativo

MADEIRA: O arquipélago deverá continuar a apresentar condições relativamente mais estáveis, com vários períodos secos, alguma nebulosidade e temperaturas agradáveis. O principal destaque imediato será o vento, que poderá intensificar-se durante o fim-de-semana, especialmente nas zonas montanhosas e vertentes mais expostas, enquanto a precipitação deverá continuar pouco significativa na maioria das regiões
Na próxima semana, contudo, também poderá aumentar a possibilidade de alguma instabilidade na Madeira, sobretudo se a circulação atlântica descer suficientemente de latitude. Algumas perturbações poderão aproximar-se do arquipélago, trazendo maior nebulosidade e aguaceiros, especialmente nas vertentes Norte e zonas altas. Para já, porém, a confiança neste cenário é relativamente baixa, e não esperamos dias de mau tempo
O Outono poderá finalmente estar à porta, mas ainda não sabemos se vem para ficar. E, este ano, mais do que nunca, a circulação atmosférica parece capaz de nos levar rapidamente de um extremo ao outro…

Análise elaborada por Fábio Félix | Luso Meteo a 15 de outubro de 2026 às 8:30H
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