Conteúdos
Tem ido às praias nos últimos dias? Certamente tem encontrado uma realidade menos habitual para a costa Portuguesa: águas significativamente mais quentes do que aquilo que é normal para esta época do ano. Em muitas praias da Costa Ocidental, a temperatura da água tem atingido os 22 a 23ºC, o que são valores muito agradáveis para banhos, muito diferentes daquilo a que estamos habituados, particularmente em Julho
A principal explicação encontra-se na circulação atmosférica que tem dominado praticamente todo o Verão de 2026. Em vez das habituais nortadas, que normalmente se intensificam durante junho e julho, com o anticiclone dos Açores a Oeste de Portugal Continental, têm predominado fluxos de Oeste. Esta configuração favorece a manutenção de águas superficiais bastante mais quentes
A origem deste comportamento “repetitivo” está num regime de bloqueio atmosférico muito persistente. Os principais elementos sinóticos têm permanecido praticamente “imóveis” durante dias e dias (como é exemplo a depressão isolada que está perto do nosso território há uma semana…), com o anticiclone frequentemente instalado a Norte da Península Ibérica. Esta situação tem impedido a circulação das depressões Atlânticas em latitudes mais comuns, o que tem alterado significativamente os padrões habituais do Verão
No Algarve, a situação é semelhante, embora aí a explicação seja um pouco diferente. As massas de ar muito quentes provenientes do Norte de África, combinadas com a forte insolação característica desta altura do ano, têm permitido um aquecimento adicional da água do mar. Ainda assim, temperaturas elevadas nesta região são mais frequentes e menos invulgares do que na Costa Ocidental
Os 22 a 23ºC observados esta semana ao longo da costa ocidental Portuguesa constituem valores muito pouco comuns e, em algumas praias, poderão mesmo representar situações inéditas para o mês de julho, uma vez que se trata precisamente do período do ano em que as nortadas costumam ser mais persistentes e intensas, promovendo águas bem frias junto à costa

PORQUE É QUE OS FLUXOS DE NORTE NÃO EXISTEM ESTE ANO?
A resposta encontra-se precisamente na posição do anticiclone dos Açores, ou melhor, na sua posição menos habitual durante grande parte deste Verão. Em vez de permanecer mais a Oeste, sobre o arquipélago que lhe dá o nome, permitindo a descida de depressões pelo Atlântico Norte, que tipicamente afetam o Reino Unido, por exemplo, e favorecendo os fluxos de Norte sobre Portugal, o anticiclone tem permanecido frequentemente instalado a norte da Península Ibérica e bastante mais intenso do que é habitual (pressões de 1025 a 1035hPA)
Esta configuração de bloqueio atmosférico impede então, como referido, que as depressões circulem por latitudes mais baixas. Como consequência, os ventos de Norte praticamente desaparecem da costa portuguesa durante longos períodos, sendo substituídos por fluxos de Oeste, que “arrastam” as águas mais quentes do “mar aberto” para a Costa
Ao mesmo tempo, as massas de ar polar têm permanecido muito mais confinadas às regiões do Ártico do que é habitual. Sem essas intrusões de ar fresco sobre a Europa, o calor consegue instalar-se durante muitos dias consecutivos. A isto junta-se o aquecimento por subsidência, provocado pela persistência de áreas de altas pressões, onde o ar desce, comprime-se, e aquece naturalmente

É precisamente este mecanismo que está na origem das chamadas cúpulas de calor, fenómenos que têm sido particularmente frequentes em 2026. Enquanto o bloqueio atmosférico persistir, continuará a existir potencial para novos episódios de calor intenso, ou mesmo extremo, especialmente agora que entrámos na fase climatologicamente mais quente do ano, aproximadamente entre meio de julho e meio de agosto
A ausência de fluxos de Norte explica também o aquecimento da água junto à costa. Em alto mar, a poucos quilómetros do litoral, a temperatura da água ronda frequentemente os 22 ou 23ºC, mesmo em anos normais. O que habitualmente acontece é que a nortada provoca o fenómeno de upwelling, fazendo subir à superfície águas profundas, muito mais frias, e também mais ricas em nutrientes. Este ano isso tem estado praticamente ausente, permitindo que a água costeira se mantenha mais quente (e mais pobre em nutrientes)
Apesar disso, os modelos meteorológicos começam a mostrar alguns sinais de possível mudança durante os últimos dias de julho. Vários modelos de elevada fiabilidade simulam o aparecimento de depressões nas proximidades do Reino Unido, país que, até ao momento, atravessa um dos verões mais quentes e secos de que há registo. Caso esta alteração se confirme, poderá ocorrer uma normalização do regime atmosférico junto à costa Portuguesa (muito provavelmente temporária…)

ATÉ QUANDO SE VAI MANTER A ÁGUA QUENTE NAS PRAIAS?
Os dados de previsão atualmente disponíveis apontam para que a temperatura da água do mar continue bastante acima da média pelo menos até aos dias 25 ou 26 de julho. Durante os próximos dez dias, o padrão de bloqueio deverá manter-se praticamente inalterado, continuando a impedir o regresso da nortada e favorecendo temperaturas da água invulgarmente elevadas em praticamente toda a costa portuguesa, ao mesmo tempo que a temperatura do ar deverá subir, também
No Algarve, é mesmo possível que a água aqueça ainda mais nos próximos dias, sobretudo no sotavento, onde não se descartam valores entre os 26 e os 27ºC. Na Costa Ocidental, muitas praias deverão continuar a registar temperaturas entre os 22 e os 23ºC, com condições invulgarmente agradáveis para banhos – em algumas praias temperatura do ar e do mar acabam por ficar basicamente iguais!
Embora estes valores possam prolongar-se durante parte de agosto, existe alguma incerteza para o final de julho e início do próximo mês, como referido, com a possível mudança temporária de regime. Contudo, à distância temporal a que nos encontramos, e considerando que os bloqueios atmosféricos têm prevalecido durante praticamente todo o Verão, de forma “teimosa”, ainda não é possível confirmar essa mudança com confiança, pelo que iremos acompanhando
De notar que este comportamento também favorece o surgimento de neblinas e nevoeiros, contudo os mesmos vão dissipando ao longo do dia na maioria dos casos, pelo que, tipicamente, temos tardes com tempo excecional para praia!

Artigo escrito e revisto por Fábio Félix | Luso Meteo no dia 16 de julho às 9H
Se encontrou este artigo no seu feed da Google Notícias\Discover clique em “Seguir” para ver mais das nossas previsões e informações e não perder nada! Siga também a página Luso Meteo – Meteorologia e Clima, nas nossas redes sociais e na Google Notícias AQUI para mais atualizações e informações! As previsões Luso Meteo são atualizadas diariamente AQUI
Se desejar ajudar com donativos para o projeto, para suportar custos de website\manutenção e serviços de subscrição para vos trazer o melhor conteúdo pode fazê-lo, ficamos muito agradecidos! Pode fazê-lo através de MBWay para 918260961, ou IBAN para PT50 0007 0000 0029 3216 7422 3
Especial agradecimento à WebDig, o nosso serviço de alojamento do website – altamente recomendado, com uma fiabilidade e apoio incríveis!

